Alice Valente Alves


Breve introdução

CORPOtraçoCORPO

(…)
“O projecto (work in progress) de Alice Valente Alves parte ele também da vivência da cor, mas dum modo não limitado a uma experiência social e humana no tempo. Não me parece sequer que haja uma técnica que se estende a todas as cores escolhidas e representadas; julgo que se pode dizer que cada uma delas resulta (resultou) de sensações e sentimentos que conduzem à cor, e esta à forma e à textura. Comum a todas elas é talvez o predomínio do orgânico, não exactamente como forma de um conteúdo (pois os conteúdos formalizados nunca serviram outra coisa senão as diversas técnicas), mas como padrão. E porque neste projecto a própria escolha das cores (vermelho, castanho-terra, cor de pele, agridoce do laranja-lima) assim está orientada.

Alice Valente Alves não usa de resto nenhuma das simbologias já estabelecidas das cores, antes cria um sistema de sentir a presença da cor no mundo (à maneira de Rimbaud nas “Vogais”). Pelo modo como incorpora o mundo, a sua luz e a sua sombra, talvez se aproxime, mas sem a menor observância rígida, das fases alquímicas: o acre, o doce, o amargo, o cálido, e depois a conjugação (o amor), a própria linguagem.

A linguagem, que neste caso se torna autónoma, acompanha como poesia de apurados contornos maneiristas, reflexiva e muitas vezes existencialmente angustiada, os padrões que as cores desentranham na tela (nas telas: pois são dípticos). Mas julgo que é a cor, não a palavra, que adquire o estatuto de essência, e aí reside a sua força e originalidade. Tal como no poema de Alberto Caeiro: “a cor é que tem cor nas asas da borboleta”.

Se Picasso no último ano da Segunda Guerra disse que “a paleta está de luto”, podemos agora dizer que neste caso a paleta se torna um eco do mundo, desde os azuis cósmicos até à terra onde o corpo se manifesta ou de que se manifesta.

CORPOtraçoCORPO, apesar desta aparente simplicidade (que se calhar é só minha), tem múltiplos sentidos. É Cor, Corpo, Texto/Textura, e outras relações combinatórias e derivadas, que cada um é livre de realizar. Nas realizações que assim forem feitas encontrará o embate luz-sombra que, segundo Goethe, é a origem de todas as cores (“Os olhos não vêem formas, mas luz transporta em cor”).

São nove as fases deste projecto, onde “nove”, tal como na Vita Nuova de Dante, se associa ao “novo”, por paronomásia. Ao fim de dois terços do projecto, creio que já estamos em condições de considerar que ele é uma forma magnífica de responder ao desiderato de Raoul Dufy: “Precisamos na pintura de algo mais do que apenas a satisfação de ver”.” (+)

Alberto Pimenta

(Poeta e Escritor)

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