Alice Valente Alves


Alice Valente: o corpo, a assinatura-mundo
16/04/2008, 1:09
Filed under: Ensaio | Etiquetas:

A ênfase posta no corpo – sobre um fundo (ir)representável – a partir da recuperação da experiência do sensível anuncia-se nas telas de Alice Valente. Temos aqui, portanto, que atermo-nos a um projecto – iniciado em 2003 – que nos remete quer à arte da pintura – a vertente criativa (poiesis) que se articula desde logo com a construção de micromundos – , quer à arte da palavra – do verbo escuro – onde se demarca uma tonalidade textual a que se dá o nome de poesia. É nesse contexto que se deve compreender o seu trabalho da imagem: como (des)aparição. Somos testemunhas – pela matéria, pela cor – do inenarrável? O (im)poder?

(In)objectivo

Entrevemos em “CORPOtraçoCORPO” – onde é possível, agora, imaginar sequências, linhas trans-históricas de criação, devires, – uma fenomenologia do corpo, como incorporação do sentir. Podemos re-descobrir, na sua matriz (noo-plano), um corpo-próprio simultâneamente requisitado e transferido: um todo (in)objectivo que se exterioriza de acordo com a consistência e concreção “física” ou “material”. Há algo de iluminação e revelação nesta arte – do percepto e do afecto – onde o corpo – enquanto tema recorrente – é-nos fenomenologicamente dado como imanência subjectiva e como exterioridade. Esta pintura biface evidencia-se assim, estruturalmente, numa assinatura-mundo, numa ficção do corpo, numa prática da cor eloquente (que se revela afirmativa, energética). A ninguém passa despercebido o impacte das cores escolhidas e representadas: um excedente.

(In)apresentável

Em Alice Valente, como em Deleuze, pensar e criar são o mesmo. Pensar, por exemplo, é criar e criar é problematizar: retomar as incógnitas. Falar, segundo a fórmula de Austin, é fazer (How to do things with words, 1962). O seu fazer diferenciante, diferencial, restitui assim o sentido primacial: dá lugar justamente a uma instância reveladora (numa lógica mais ampla que a representacional) num imbrincamento do pensar e do sentir (acopulamentos). Podemos dizer que a categoria de corpo é uma categoria-fundamento que esta pintura celebra onde o afectus lhe dá consistência. A sua pintura assim, propriamente, não diz o indizível, ela passa a ser a síntese de um há primordial, não suceptível de configuração, de objectivação. Perpetua-se aqui na busca de um metapadrão que tudo liga: pó de terra e de estrelas (caosmos). Ela consagra-se a fazer alusão ao (in)apresentável.

Alexandre Teixeira Mendes

Anúncios
Comentários Desativados em Alice Valente: o corpo, a assinatura-mundo





Os comentários estão fechados.



%d bloggers like this: