Alice Valente Alves


Poesia

O INTERESSE

Sentou-se e pensou:
– Onde estou eu, que lugar é este?
Uma voz cintilante e muda, vinda de um qualquer interior que não o seu, tenta advertir:
– Estás na terra da penumbra! E já agora, olha bem em teu redor e vês alguma coisa que te interesse? De entre todos esses objectos, algum te interessa?
E continuando naquele mesmo lugar, em terra de ninguém, abanou a cabeça decididamente, em jeito de saber que ali não era, de modo nenhum, o seu lugar.
Quisera ir-se embora, mas não o fez. Deixou-se ficar à espera que algo acontecesse.
E o sangue arrefeceu, a terra estremeceu, o céu espelhava a água que corria suja e não havia como lembrar o que porventura, ali nutria alguma doçura.

.

no ar de um dia

por não altivos
confortam-se
nutridos do ar
de um dia após este
de um outro dia que não este
sussurram-se vestes de jogos aprazíveis
mimam-se os desviados sorrisos
e pede-se de mão em mão
por não dados
os que sempre e de vez em vez
não têm
nem agora nem depois
que dar
por não recebidos

 

.

O QUE FAZER

Não sei quem virá
Para dizer quem fez tudo aquilo
Tudo aquilo que por errado
Por tão errado
Era certo
Era o credo da certeza dos incrédulos
E seguimos obrigados a deixarmo-nos ser
Ser dos seres do querer de todos os incrédulos
E esbracejando lutámos, lutámos, lutámos
Para quê
Para diante da cruz
Repetir palavra a palavra
Dizendo, dizendo, dizendo o que estás a fazer
É incerto na certeza de não sabermos
Onde estamos ao certo
De jamais o saber se prega em cruzes
De ladainhas que nos fazem
Não Fazer

E lá longe ouve-se um outro grito
Mais um
Mais que não me verão
Que não me dirão
Que aceitem mais regras
Das obras que não nos ditam

.

SER POR NADA SER

Olha bem para cima
E o que vês
Nada
Nada que te interesse
E nada que te faça falta
Que grande pessoa que és que nem reparas
No que está

Mas já agora que estás em bicos de pés
E que puxaste e que açambarcaste tudo tudo
O que precisavas e querias para teu colo

De onde pensas que vieste

Da terra feita de bichos
Da terra feita de bichos mortos
E que ainda assim te puxa para cima
Da vida em vida nas vidas a terem de morrer
Para alimentarem todos os terráqueos desta Terra
Na terra que por tão excrementosa e barrenta
Come, cospe, expele e molda
Porquanto contínua força da vida
Vida viva
Em que vida por vida una
Vida por que vias

.

castigo por FIM

Castigamo-nos saboreando o que é proibido
Castigamo-nos fumando e bebendo na dose do excesso
Castigamo-nos
Castigamo-nos na legalidade da vida
Castigamo-nos porque o prazer vende-se ao gozo
Castigamo-nos pelas coerentes regras da denúncia
Castigamo-nos na aprendizagem de não-ser
Castigamo-nos pelas leis da obediência enviesada
Castigamo-nos contraditos
Castigamo-nos por um dia se igualar a uma vida inteira
Castigamo-nos quando o frio se instala num dia de Sol
Castigamo-nos porque o arrepio faz-te rasgar tua pele interior
Castigamo-nos sem dó nem piedade
Castigamo-nos porque precisam de nós assim a consumir
FUMAR MATA – NÃO À DROGA – FIM À EXPLORAÇÃO…
Fim às escolas dos repetidores… Fim aos católicos ameaçadores… Fim aos falsos que se tornam benditos mentirosos… FIM às leis da CULPA assentes no “político ou psicologicamente correcto”… FIM aos que se protegem em palácios servidos por escravos… FIM a tudo o que é errado e aceite como certo legalmente… FIM aos professores e a todos aqueles que precisam do dinheiro que ganham para comer a humilhar todos os desprotegidas e sem posses… FIM à utilidade inútil e FIM á inutilidade útil… POR FIM, fim às indústrias, fábricas, escolas, economias e sistemas da exclusão humana!…
Tudo porque um dia irei morrer e tu também!

.

preciso

O que é preciso?
Ser preciso ou precisarmos?

Precisarmos e sermos precisos!

Para aqueles que não precisam
Porque podem comprar tudo o que precisam
Pensam assim que não precisam dos que precisam
São imprecisos na sua precisão!

.

PARAGEM

Vamos todos aprender no ensinar a não fazer
Vamos ser a não fazer nada do que sabemos fazer
É assim que interessamos
É assim paciência
Sim, vamos simplesmente imitar os que não fazem
E fazer que fazemos
A deixar que a morte se antecipe nessa ordeira e fatal vida
Deixemos pois que se faça vivas a essa vida morta logo à nascença

Bebe um só trago dessa água que sabes que te irá contaminar
E verás como te sentirás da tua embriaguez
Toma mais
E deixa-te com todos os remédios que te aconselham a estar nesta vida
Deixa-te levar por aí por toda essa subtracção que te colhe os sentidos
E ensaia-te experimentando todos os dias a remar nesse contrário
E ao longo de um pouco do muito do teu tempo
Verás como te sentes
Que cansativa e rasteira vida
Doem-te as costas e sentes o quanto se está parado

E os outros, os que fazem que fazem que estão fazendo
E simplesmente fazem porque fazem
Ou porque têm de fazer porque é assim e paciência
No porque há ainda muito para contaminar no depois curar a lucrar
Ah, esses também estão bem mal
Sim, esses que se afogam de contentes
Os do ora-sim-ora-não ou os tais de vencidos ou vencedores dessas lides

São estas resumidas e iguais vidas todas mal paradas
Neste pouco sentido do muito, que não se pode fazer, porque é assim paciência
Valham-nos pois os deuses, que se alegram desta podridão de tão grande pobreza
E calhar-nos-á talvez um dia um canteiro
Deitado à beira daquela estrada
Circundado por quatro caiados muros e um portão de que entrada
E que por sinal jamais te pisarás

.

CASA DA OLIVEIRA

Sentida terra
Que alivias teu parto
Pedra
Em tempo que levas!

.

ELOS

Dedos em palma da mão
Que não escreve
ELOS do anel só
Dobram teus dias escritos
Lados de um outro lado
Anula compósita união
Das arranhas vontades que não pinto
A pintar desejos com vida
Abrem-se todos os sorrisos
Reaviva a sombra da orla
Chegados em movidos gestos
Dedos da mão que palma
Agarra-se anel

 

.


PARTE

Leves ou elevados
Transportam os pesos de quantos desejos
Agarrados à causa pesada
Partem em gritos velozes

E depois de um dia
Outro desigual dia
Igualmente desaparecerá
Por passados matam-se os tempos
De um tempo a tempo
E amiudamente
Parte-se teu espelho

 

.

PRESENTE

Deixou de ser
Deixou de estar
Deixou de contar
Deixou de dar-SE

Presente sem mais presença

.

Uma história, um romance… uma vida

Assim, durante toda a sua vida as coisas tinham sido sempre difíceis. Tinham sido sempre difíceis e sempre tivera pessoas a ingerirem-se no seu caminho. Mas se se afastava delas, depressa outras surgiriam nesse mesmo estar.

Então para quê viver uma vida inteira? Simplesmente por viver? Simplesmente para fazer funcionar órgãos?

– Peço desculpa, mas não compreendo!

– Se ninguém nos vier incomodar, temos de falar de uma coisa importante.
– Falar?
– Sim.

Por detrás de seus cabelos em véu, ela chorava quase em silêncio.

Abaixo da janela viu a neve que derretia no pátio.

Um céu dum branco sujo pesava como um fardo sobre a cabeça.

A geada matinal já desaparecera mas o frio continuava.

.

ÚLTIMO DIA

Será hoje o ÚLTIMO DIA
Todos os dias terão um ÚLTIMO DIA
Estou e estarei a saber todos os dias
No que virá e urge não saber
Porque em ÚLTIMO DIA
Neste que será sempre mais um dia
De um único e talvez ÚLTIMO DIA

 

.

ar da cidade

Estarei eu subindo a montanha declinável
Estarei eu concordando que as ruas só descem
Que os barcos à beira rio não se movem
Que nesse teu espanto se assenta a única alegria
Na nuvem que impermeabiliza
Acima de todo o ar

Ouvem-se as gaivotas
Muitas gaivotas por aí
Muitas
Vêm até à cidade
E os pombos afastam-se delas
As pombas põem ovos por todo o lado
Já não fazem ninhos
E as gaivotas comem-nos
E porque não se comem pombos

 

.

UM TANTO FAZ DO OUTRORA AGORA

Telemovem-se inscritos na mente de capturas datáveis
Companheiros em companhias mal paradas
Estacionados em bolsos, carteiras e afins espaços, todos eles lado a lado
Tocam e retocam-se em mensageiras ideias sem mais
Reconfortáveis ausências das chegadas que não se virão
Substitutos de um não expresso
Súplicas presenças gastronomicamente consumidas
Uso sem fruto ou fruto sem usos de um tanto faz
Basta não fazer por já feito ao que dita
Inúmeros são os repetitivos répteis gestos
E aceitam-se as de agora corruptíveis malfeitorias
Aprendizes das regaladas e numéricas vias
Ainda assim sugam as peles das acastanhadas rubricas
Tragam-se suspiros e venham eles doravante por experimentar
Ditos e proveitosos sussurros de participáveis e pré-combináveis apertos
E só assim se vêem por aí encostados ou semi-encostados por tantos costados
Membros de esotéricas distracções assumidas à proa destapada
E o vento cabe-lhes na procura de taças simuladas de um outrora escondido
Rédeas soltas aprisionam as ideias nas tomadas de fins à vista
Vidrados telhados de graníticas chuvas por cair
Dias e dias a mais sem achados de tronos comprimidos
Por quantos dias que não se acham

 

.

A SOMAR ANTES

Passeam-se
Desfiladeiros
Semeam-se calçadas
Somam-se
As regras
Abatidas
Cabeças
Eiras
Feiras
Férias

Por vezes
Arrepiam-se vestes
Por vezes somente ficam
Por aí plantados
Sem regas
Crescem por si
A mais
Somenos

NÃO ESTAVAM LÁ
NÃO SUBIRAM
NÃO ESPERAM
VIRAM O DIA
DO ANTES
SER
E
NÃO TE
QUISERAM
Eras tu
Eu sei

.

levantados

.

Mal e BEM

Ainda que se considere o dinheiro como um bem em cativas alegrias a esquecer o que está Mal.

Sempre e somente se vive BEM pelo Bem de todos aqueles a alterar o que Mal está.

.


expõe-se

Estou com alento
E todos se habituaram
Estou sem forças
E todos se adversam
Estou com fome
E todos hostilizam
Vou morrer
E o silêncio expõe-se

 

.

Vira-se a DANÇA

Incessantemente confiantes
Ocultam-se as chamas
Haveremos de nos calar para sempre
Ainda vivos como mortos à nascença
Torturando por igual em demissão
Ou a submissão realça a tradição mortífera
De bem em todo o mal nascidos
De quando em quando vivos
A matar para todo o sempre…

 

.

Correr

Vivemos sendo aprendizes
Vivemos pedintes da fome alheia
Retiramos o nada da boca dos que nada têm
Livramo-nos do nosso mal
Pelo mal que os outros têm de possuir
Escolhemos gritar com outros sorrisos
Que nos deixam deitados dias e dias
Por comprimidos ingeridos
Do aliviar a dor da dor que não escolhemos

Vai comigo ao rio e espera
A ver como corre
Calmo ou agitado para aquele
Que sabe que é o seu fim

 

.

sombra acesa

Numa longínqua estrada
Tão distante
Tão distante
Aproximas-te

Naquele espaço de águas
Próximas são as partidas

E aquela terra
Da música em sons
Esperando pelos dias
Pelos muitos dias distantes

Pianos rasgam crespúsculos

Azuis e verdes
Dentro e fora de casas
Tempos de agora antigamente
Procurados à estrada de terra
Daquela terra
A terra ida

Pensas no grito que te arranhou
E soam todas as tuas vozes
Esperando pela ida sem regresso

Comer
Comer ao sabor de um desejo
De não querer mais
E ao sair da gruta
Chega-te o alimento indisponível
De um aconchego

Da ave que poisa
E se eleva em céus livres
Sombras afiadas
De uma noite iluminada.

 

.

TER

QUE SER PERFEITO

Aperta-te com aquele abraço
Do pouco com muito espaço
Não te vás embora
Fica nela
Não a deixes
Não a deixes ficar sem teu coração

Alegra-te na tristeza da imperfeição
Do que poderá ser perfeito.
Um valor dentro de um espaço
Com telhados
E a luz que passa e trespassa

E irei dar-te o mesmo que sempre me deste
Ao me despertares
Agora na noite
Com o desejo de felicitar o aniversário
Sem avistar as velas

 

.

por tudo

Enfim
Retirados à frente caminhando
Abrem-se as portas de par em par
Fechadas por ti o fizeram

POR nada acharem
O quão difícil é descobrir
Vendo não por comprar
Vendo por já vendido

Ver de vender ou vender TUDO que visto
Não existirá mais vendas
Do que não se deseja ver

IGUAL SONHO DO DIA QUE NÃO DORME

Fechados
Fecharemos o tempo glorioso
Ritmo compassado em ciclo do círculo
Que nos fechará
A ver de deixados
Findem-se as dores

 

.

.

plantam-se

plantam-se manobrados

.

abaixo

a saudade e a vontade

aniquilam-se por deferência

e os desejos decantam-se

.

a contornar

Calçados por aí
Em quatro pés descalços
Sobre o pó da pedra lisa
Porque nome
Transforma-se caminhos

.

PERGUNTA

O que é nascer para todos os nascidos
Deixar nascer
Nascer outra vez
Ou morrer

.

Interiormente

Por não presos dentro lá fora
Horas de um tempo presente futuramente
Abraçamos os sons gritantes do alívio das palavras que nos fogem
Apanhados na hora que nos desliga do preciso momento percebemos
Se não nos fizermos do nada que somos feitos nada se faz

.

QUE PAZ

Desdiz o que te fazem dizer
Retrocede-te
Não ensines sem saberes
Desaprenderás
Aprende por inocente
De um desejo do que é gostar
Por inteiramente sempre
Quando chegam as frutas
Quando chegam as cores
Caindo aos dias perdidos
E quando chegam as músicas
Da música que não saberás tocar
Que dirás
Que a paz ensinada
Não comprará a felicidade que se precisará

.

QUE GUERRA

Rodeando
Serpenteiam a montanha descendo-a
Ao vale de nunca se encontrarem
Apoderados em seus requisitos
Estremecem
Desconhecido e feroz é o monstro
Mal liberto porque censuras
Renúncias da vida por que vidas
Aptos por aprendizados
Sonham-se nas glórias
Acima de todo o espaço
Mortífera é a cruz empunhada
Guerreiros e guerreiros
Intemporais do ainda agora
Históricas vagas
Da morte aos obrigados por que destino

.

COMIDA

Quiseste ter na tua mão semeada
As sementes
As muitas sementes
Que não largaste na terra comida

E agora
Já num tempo passado
Nada crescerá a seu tempo

.

QUE AMOR

Revolta contra o Amor
Que é terno, que é frágil, que é belo
Ou revolta contra o ódio que não ama
Que apaga, que destrói, que é feio.

E após a destruição
Ainda se espera por um pouco
Só por um pouco do que ainda resta
Da sensível beleza fragilizada

Ainda e sempre com o mesmo nome
Amor
Esperado do nada
Transformado
Em esperança do resto do nada
Esperado
Ainda assim…Onde estão as luzes apagadas
Que brilhavam
Iluminando todo o teu espaço

 

.

QUE ÓDIO

Insurreições de uma volta cíclica
E de quando em quando
Senta-se à mesma mesa do consumado amor
O resto do início esperado
Confunde todos os prenunciadores
De agora e de outrora
Instalado em suas regaladas instâncias
Coopera
E atreve-se a antever o dia seguinte
Ódio cúmplice de que amor libertado
Amor fechado em portas das sete chaves
Reis e rainhas alegraram-se em tantos ganhos capitais
E agora igualmente se traduzem em verbais
Conceitos da maior das leis consumíveis
Ódio do Amor ou amor por ódio

 

.

.

.

SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES

.

.

Textos, poemas, imagens e projectos de ALICE VALENTE ALVES está reservado o DIREITO DE AUTOR e qualquer cópia ou utilização em outras publicações electrónicas ou impressas, não são permitidas sem a sua autorização.

.

 

.

 

.

..

 

.

.

..

 

.

Página em manutenção com a introdução de + poemas. (26/02/2010)
Anúncios







%d bloggers like this: