A ênfase posta no corpo - sobre um fundo (ir)representável - a partir da recuperação da experiência do sensível anuncia-se nas telas de Alice Valente. Temos aqui, portanto, que atermo-nos a um projecto - iniciado em 2003 – que nos remete quer à arte da pintura – a vertente criativa (poiesis) que se articula desde logo com a construção de micromundos - , quer à arte da palavra - do verbo escuro - onde se demarca uma tonalidade textual a que se dá o nome de poesia. É nesse contexto que se deve compreender o seu trabalho da imagem: como (des)aparição. Somos testemunhas - pela matéria, pela cor – do inenarrável? O (im)poder?
(In)objectivo
Entrevemos em “CORPOtraçoCORPO” – onde é possível, agora, imaginar sequências, linhas trans-históricas de criação, devires, - uma fenomenologia do corpo, como incorporação do sentir. Podemos re-descobrir, na sua matriz (noo-plano), um corpo-próprio simultâneamente requisitado e transferido: um todo (in)objectivo que se exterioriza de acordo com a consistência e concreção “física” ou “material”. Há algo de iluminação e revelação nesta arte - do percepto e do afecto - onde o corpo - enquanto tema recorrente - é-nos fenomenologicamente dado como imanência subjectiva e como exterioridade. Esta pintura biface evidencia-se assim, estruturalmente, numa assinatura-mundo, numa ficção do corpo, numa prática da cor eloquente (que se revela afirmativa, energética). A ninguém passa despercebido o impacte das cores escolhidas e representadas: um excedente.
(In)apresentável
Em Alice Valente, como em Deleuze, pensar e criar são o mesmo. Pensar, por exemplo, é criar e criar é problematizar: retomar as incógnitas. Falar, segundo a fórmula de Austin, é fazer (How to do things with words, 1962). O seu fazer diferenciante, diferencial, restitui assim o sentido primacial: dá lugar justamente a uma instância reveladora (numa lógica mais ampla que a representacional) num imbrincamento do pensar e do sentir (acopulamentos). Podemos dizer que a categoria de corpo é uma categoria-fundamento que esta pintura celebra onde o afectus lhe dá consistência. A sua pintura assim, propriamente, não diz o indizível, ela passa a ser a síntese de um há primordial, não suceptível de configuração, de objectivação. Perpetua-se aqui na busca de um metapadrão que tudo liga: pó de terra e de estrelas (caosmos). Ela consagra-se a fazer alusão ao (in)apresentável.

